Eu
me sinto tão sozinha... Meu peito está tão oprimido... Quanta tristeza eu sinto
quando penso quantas coisas deixei de fazer, quantas coisas deixei de viver por
causa do vício. Sinto-me fraca, cansada, com fome e com frio. Estranho sentir
tudo isso se eu já não tenho um corpo de carne, se eu já morri, como descobri
depois de longas penas, depois de muito tempo. E o vício também continuou mesmo
depois de morta, mesmo depois de deixar a vida na Terra.
Vocês
devem estar pensando que eu era drogada, dessas viciadas em coca, em maconha,
em crack. Nada disso. Meu vício não deixa de ser uma droga, mas a sociedade não
pensa assim, muito pelo contrário, até incentiva o uso e o consumo. Eu era, ou
melhor, eu sou uma alcoólatra. Hoje consigo admitir isso e quero sair dessa,
quero me curar. Mas em outros tempos eu não me julgava uma viciada, uma pessoa
doente, que precisava de ajuda e de tratamento, mas sim me achava uma pessoa
normal que só gostava de se divertir, de se sentir alegre, leve, extrovertida,
divertida, pois era assim que a bebida fazia com que eu me sentisse.
Comecei
bebendo com amigos, na saída do colégio, depois no cursinho e continuei na
faculdade, quando intensifiquei o uso do álcool.
Tudo
era motivo para beber. Se eu passava um dia sem beber, me sentia mal, me dava
um desespero muito grande, eu já não conseguia almoçar sem beber, não conseguia
dormir sem antes tomar um golinho para me acalmar.
Fiz
muita loucura na vida. Quando bebia perdia consciência do ridículo que eu me
tornava, ainda mais para uma mulher. Eu não me valorizava, não me dava ao
respeito, logo quem ia me respeitar? Muito pelo contrário, os homens que saiam
comigo queriam mais era se aproveitarem de mim, já que, quando eu bebia eu
topava tudo, fazia tudo e depois não me lembrava de nada, nem o que eu tinha
feito e às vezes nem com quem.
Depois
batia uma tristeza, eu chorava muito, me sentia um lixo, um trapo, jurava que
não ia mais deixar as pessoas me usarem, que tomaria o rumo da minha vida dali
para a frente, mas isso era até eu me ver novamente tentada pelo álcool.
Como
é difícil se livrar de um vício, meu Deus!
Parece
que as tentações estão em todos os lugares, numa simples padaria, num
restaurante, num churrasco, numa festa. Em todo lugar que eu ia, lá estava a
bebida me tentando, as pessoas oferecendo, insistindo para que eu aceitasse. E
começava tudo de novo. Às vezes eu bebia tanto que não conseguia nem levantar
para ir trabalhar no dia seguinte. A cabeça doía, o estomago embrulhava, era
como se o mundo tivesse desabado sobre mim, como se tudo estivesse girando ao
meu redor.
E
adivinhem: eu perdi o meu emprego e nunca mais consegui arrumar outro.
Minha
família desistiu de mim, não sabiam mais o que fazer para que eu parasse de
beber.
Comecei
a roubar o dinheiro deles para sustentar o meu vício, bebia bebidas baratas,
fortes, mas que me destruíram por completo.
E
foi neste estado deplorável que eu morri, vítima de uma insuficiência hepática
e cardíaca.
O
que eu posso dizer agora? Que me arrependo, que gostaria de poder voltar no
tempo e dizer para esta juventude que está começando a descobrir a vida, que o
álcool também vicia, que o álcool, apesar de permitido, também é uma droga,
talvez até pior do que as drogas propriamente ditas, pois é permitido, aceito e
incentivado pela sociedade e pela mídia.
Sei
que as leis estão mudando, que pelo menos em relação aos motoristas, já há
legislação pertinente em relação ao consumo de álcool e à condução de veículos
em estado de embriaguez, mas ainda há muito que se mudar na sociedade em geral.
Mas
também sei que isso gera conflitos de interesses e conflitos culturais, de
séculos de consumo desordenado e sem controle.
É
legal ser visto numa festa com um copo nas mãos. É legal se sentir leve, descontraído,
alegre. E gostoso saborear um bom vinho, mas tudo tem que ser feito com
moderação.
E
o limite entre o suportável, o “beber social” e o vício é muito tênue e depende
da predisposição do organismo. Tem pessoas que têm tolerância ao álcool, enquanto
outros são fracos e sofrem grandes alterações de humor e personalidade quando
estão embriagados.
Cuidado!
Saibam conhecer os limites do seu corpo, saibam perceber os sinais de que algo
está errado, de que você está perdendo o controle sobre a situação e procurem
ajuda se necessário.
É
muito difícil e doloroso tentar se livrar do vício. É uma vigilância constante.
E este é o estado em que estou. Tentando encontrar a minha vida novamente,
tentando me salvar, me livrar deste mal.
Obrigada
por me ouvirem.
Célia