A velhice do corpo físico em meio ao seio de uma família,
dentro de um lar com amor e carinho já não é tão fácil.
É difícil admitir que o tempo está passando, que a
vitalidade já não é mais a mesma, que a memória por vezes nos prega peças e às
vezes foge ou nos confunde, que o corpo começa a arquear e a sentir o peso dos
anos e nada no nosso corpo é como era na juventude, no auge dos anos, da força
e da beleza física.
É difícil não conseguir mais fazer os trabalhos com
a mesma agilidade, não ter mais a paciência e o humor de antes, não ter mais o
sono pesado e contínuo de outrora, não ter mais as atividades que ocupavam o
nosso tempo.
Agora imaginem a velhice nas ruas. A verdadeira
imagem do abandono, do invisível, do indesejado, do inoportuno, do peso da vida
nas costas.
Eu fui um jovem muito bonito, muito sociável, que
curti a minha juventude em festas, em noitadas regadas a álcool, drogas,
mulheres, diversão. O tempo foi passando e eu continuava achando que a vida
fosse ser assim para sempre, que a velhice nunca chegaria para mim.
Quando eu via meus antigos amigos de farra tomando juízo,
deixando essa vida desregrada e inconsequente, eu achava que eles eram bobos,
que estavam sendo fracos, sujeitando-se à vontade da família, à vontade de uma
mulher quando eles resolviam se casar.
E eu continuava. Até fiz uma carreira, ganhei
bastante dinheiro, mas tudo que eu ganhei, gastei com diversão, com viagens,
com drogas, álcool e mulheres. Não construí uma família. Não me preocupava com
o futuro, achava que seria eternamente jovem e que meu dinheiro não acabaria
nunca.
Mas os anos se passaram e não é preciso ser muito
esperto para adivinhar o que aconteceu comigo. Acabei sem nada, afundado em
dívidas e no vício. E acabei sozinho... Nas ruas.
E conheci uma outra face da vida, dura, fria,
cruel, desesperadora.
Quanto sofri, quanto me arrependi por tudo que fiz.
Uma vez vi passar por mim um antigo colega que não me
reconheceu, mas que estava com sua família, carregando nos braços uma criança,
que a julgar pela idade, deveria ser seu neto. E seu semblante era feliz.
Naquele instante chorei. Chorei como nunca tinha
chorado em toda a minha vida. Chorei por minha situação miserável, não só
materialmente, mas miserável de espírito.
Quão vazia, quão sem sentido havia se tornado a
minha vida. Quais eram os meus valores? Em quem eu havia me tornado? O que eu
tinha feito da minha vida? E chorei, chorei sentidamente, profundamente
arrependido, com uma saudade tão grande, tão profunda daquele rapaz alegre,
estudioso, amado por uma família, que eu tinha sido num passado que agora
estava tão distante...
Naquele instante pedi perdão a Deus. Pedi perdão
por ter jogado minha vida fora, por ter me tornado uma sombra, quase invisível nas
calçadas.
Só me lembro que pouco tempo depois eu morri e
acordei num lugar muito diferente daquele em que eu tinha passado o fim da
minha vida. E eu não estava mais sujo e malcheiroso. E também não estava mais tão
velho. Eu não era i mesmo rapaz bonito da minha juventude, mas também não era
mais aquele velho do qual eu me lembrava no fim da minha vida.
Estou cansado. E profundamente arrependido por tudo
o que eu fiz.
Espero que numa próxima vida eu consiga trilhar
outros caminhos e que eu possa sentir a felicidade do amor e de uma família.
James
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