Que dura é a
realidade da vida nas ruas. Como é difícil e doloroso viver sem um lar, sem uma
família, sem esperança, sem ninguém, sem nada, nada alem do vazio, do desprezo,
do medo, do nojo das pessoas que passam por nós.
A falta de
perspectivas, de oportunidades, de uma chance de sair dessa vida... Era tudo
que eu queria ter recebido: atenção, uma oportunidade de mudar, de deixar o
vício, o ócio.
Mas os
moradores de rua se transformam em sombras, em seres invisíveis, indesejáveis,
inoportunos, que a maioria das pessoas faz de conta que não vê, que não
existem.
É fácil
fechar os olhos. É fácil atravessar a rua, desviar o trajeto, desviar o olhar e
seguir adiante, como se não existíssemos.
Eu só queria
um pouco de atenção. Eu só queria uma chance de provar do que eu era capaz.
Mas quem se
importaria com alguém como eu?
Quem se
importaria com a minha situação? Eu não era nada... Eu não era ninguém.
Minha vida
foi tão inútil, tão sem sentido...
Não consigo
entender por que uns tem tanto e eu não tive nada. Por que a vida nunca me deu
nada, por que minha existência foi tão miserável e sem sentido.
Será que
existe um Deus que olha por todos? A Igreja diz que sim, mas por que existe
tanto sofrimento, por que existe miséria, fome, doenças, por quê?
Eu não fiz
nada para ser tão castigado. Eu já nasci nas ruas, nunca tive nada de bom na
vida. Nas ruas nasci; nas ruas morri... Mas e a surpresa de descobrir que mesmo
depois de morto eu continuava vivo, não sei como.
São tantas dúvidas,
tantas inquietações, tanta angústia que eu sinto. Não sei mais o que fazer, não
sei mais o que pensar, não tenho para onde ir, parece que por mais que eu ande,
por mais que eu tente, não saio do lugar.
Estou preso
de alguma forma ao passado, às ruas em que vivi. Mas estou cansado.
Se Deus
existe, por favor, me ajude, por favor, tenha piedade de mim!
Estão me
oferecendo ajuda e um abrigo num lugar seguro, onde dizem que poderei
descansar, onde poderei ter paz e encontrar respostas para minha angústia, para
as minhas indagações.
Vou aceitar
essa ajuda, pois é a primeira vez na vida que uma mão se estende para mim, que alguém
se importa comigo.
Rafael
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