Depoimento - Rafael

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Que dura é a realidade da vida nas ruas. Como é difícil e doloroso viver sem um lar, sem uma família, sem esperança, sem ninguém, sem nada, nada alem do vazio, do desprezo, do medo, do nojo das pessoas que passam por nós.
A falta de perspectivas, de oportunidades, de uma chance de sair dessa vida... Era tudo que eu queria ter recebido: atenção, uma oportunidade de mudar, de deixar o vício, o ócio.
Mas os moradores de rua se transformam em sombras, em seres invisíveis, indesejáveis, inoportunos, que a maioria das pessoas faz de conta que não vê, que não existem.
É fácil fechar os olhos. É fácil atravessar a rua, desviar o trajeto, desviar o olhar e seguir adiante, como se não existíssemos.
Eu só queria um pouco de atenção. Eu só queria uma chance de provar do que eu era capaz.
Mas quem se importaria com alguém como eu?
Quem se importaria com a minha situação? Eu não era nada... Eu não era ninguém.
Minha vida foi tão inútil, tão sem sentido...
Não consigo entender por que uns tem tanto e eu não tive nada. Por que a vida nunca me deu nada, por que minha existência foi tão miserável e sem sentido.
Será que existe um Deus que olha por todos? A Igreja diz que sim, mas por que existe tanto sofrimento, por que existe miséria, fome, doenças, por quê?
Eu não fiz nada para ser tão castigado. Eu já nasci nas ruas, nunca tive nada de bom na vida. Nas ruas nasci; nas ruas morri... Mas e a surpresa de descobrir que mesmo depois de morto eu continuava vivo, não sei como.
São tantas dúvidas, tantas inquietações, tanta angústia que eu sinto. Não sei mais o que fazer, não sei mais o que pensar, não tenho para onde ir, parece que por mais que eu ande, por mais que eu tente, não saio do lugar.
Estou preso de alguma forma ao passado, às ruas em que vivi. Mas estou cansado.
Se Deus existe, por favor, me ajude, por favor, tenha piedade de mim!
Estão me oferecendo ajuda e um abrigo num lugar seguro, onde dizem que poderei descansar, onde poderei ter paz e encontrar respostas para minha angústia, para as minhas indagações.
Vou aceitar essa ajuda, pois é a primeira vez na vida que uma mão se estende para mim, que alguém se importa comigo.

Rafael 

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