No
início aqueles becos escuros, imundos me causavam calafrios, medo, muito medo.
Em sã consciência eu jamais teria entrado lá, mas drogado como estava e
querendo mais, precisando de mais droga, eu não pensei duas vezes e fui ao
encontro deles.
Chovia,
fazia muito frio e aquilo tornava o beco ainda mais sombrio e assustador.
Pessoas me olhando, desconfiadas, homens falando baixinho, me olhando de lado,
pessoas que pareciam me seguir, para saber aonde eu iria, o que eu iria fazer,
com quem iria me encontrar. Pessoas que não me conheciam e que queriam ter
certeza que eu não representava perigo para os negócios deles.
Eu
ia entrando, andando rápido, tentando me recordar do caminho que eu fizera uma
vez em companhia do traficante que me vendia. Não era muito comum eu ir buscar
lá no beco, mas quando a droga acabava no meio de um fim de semana como daquela
vez e eu não agüentava esperar até segunda-feira na faculdade, a compulsão me
fazia ir atrás dele. Ele não gostava muito que eu invadisse o seu território,
nem sempre era seguro que fosse assim, mas eu estava em tamanho desespero que
não podia esperar e eu fui atrás de mais e mais.
Medo
eu senti, muito medo mesmo, mas não me importei muito com isso. Perguntei para
algumas pessoas pelo Pedro e fui conduzido até o barraco dele. Só que eu me
esqueci que nas últimas vezes eu tinha comprado fiado e ele me disse que para
me dar mais, eu tinha que quitar o que eu devia. É claro que eu não tinha todo
o dinheiro para quitar a minha dívida. E ele se recusou a me vender mais, pegou
todo o dinheiro que eu tinha no bolso e me mandou embora, abriu a porta e me
jogou para fora.
Mas
no desespero em que eu estava e, cego, sem raciocinar o perigo que eu corria,
insisti e voltei para lá, voltei a bater na porta dele. Ele ficou furioso,
gritou comigo, me mandou embora, mas eu não fui, eu insisti por mais droga,
implorei que ele me desse alívio, implorei por mais drogas.
Ele
disse que se eu não queria ir, que não fosse. Que eu tive a chance de sair
livre, mas que já que eu não queria, que eu ficasse, mas eu teria que fazer
tudo o que ele mandasse, tudo o que ele quisesse, que dali pra frente eu seria
seu empregado, e ele me daria mais droga, mas eu teria que trabalhar para ele.
E foi assim que passei de simples usuário a traficante e me envolvi neste jogo
sujo, terrível, sem fim.
Minha
vida foi curta. Fiz muitas coisas erradas, fui preso e acabei morrendo na
cadeia. Mesmo lá dentro eu sempre dava um jeito de conseguir droga. Sempre há
esquemas com policiais e agentes penitenciários corruptos e que se deixam levar
por este jogo sujo, por este jogo de poder, onde os mais fracos sucumbem. E eu
sucumbi; morto numa briga na prisão.
Sofri,
demorei a entender o que tinha acontecido. Continuei me drogando através de
outros usuários de droga mesmo depois que eu morri.
Passei
muito tempo assim, até que recebi a ajuda de espíritos bons, trabalhadores do
Senhor, que me levaram para um lar, um local de repouso, de tratamento, de
recuperação e de estudos, onde recebi afeto, atenção, carinho, cuidados e
respeito.
Hoje
venho aqui para agradecer a Deus por toda a graça e por toda a ajuda recebida e
para dizer a outros jovens, que existe vida após a morte, que existe salvação
para quem crê em Deus e tem força de vontade, persistência e paciência.
Se
você é um jovem que se encontra envolvido com drogas, procure ajuda, procure
tratamento. Não se entregue ao desespero, não se entregue mais ao vício.
Procure seus familiares, procure seus amigos ou se preferir procure grupos de
ajuda e de tratramento.
Fiquem
em paz e confiem em Deus.
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