Minha vida nunca foi fácil.
Nasci e cresci num bairro pobre, na periferia de São Paulo. Casa humilde, mas
honesta, com pais trabalhadores, mas que nem sempre tinham comida para por à
mesa, nem dinheiro para saciar a fome e as mais básicas necessidades. Meus
irmãos foram mais fortes do que eu. Apesar de todos os problemas e dificuldades
que passamos, eles conseguiram dar a volta por cima e serem alguém na vida,
honestamente, com trabalho, com estudo, com noites sem dormir, estudando para
chegar aonde chegaram, para passar no vestibular e cursar uma faculdade. Mas eu
fui fraca... Por quê? Não sei. Sempre fui muito orgulhosa e revoltada com a
nossa condição de penúria.
Havia dias em que eu via
minha mãe chorando, dizendo que não sabia mais o que fazer, que não tinha mais
dinheiro e que não havia nada para comer. Às vezes os vizinhos nos ajudavam. Ou
os patrões do meu pai, lhe davam roupas e alimentos para trazer para casa. Essa
ajuda era recebida com alegria e gratidão por minha mãe e irmãos, mas não por
mim. Sentia-me humilhada com aquelas migalhas da solidariedade e queria mais,
queria coisas melhores, queria, mas não fazia nenhum esforço para mudar aquela
situação.
Ao contrário dos meus
irmãos, que sempre agarraram com todas as forças as oportunidades que tinham,
eu sequer queria freqüentar as aulas. Às vezes cabulava, ficava pelas ruas,
onde conheci pessoas que eu julgava serem meus amigos, mas que foram o inicio
da minha desgraça.
Eu comecei experimentando
uns cigarrinhos, que eu achava inofensivos, depois passei a experimentar coisas
mais fortes, mas para sustentar o vício, pedia esmolas nos semáforos, praticava
pequenos furtos e depois comecei a servir de aviãozinho para os traficantes,
dentro e fora da escola. Em troca, eles me davam a droga que eu tanto precisava
e sem a qual eu não podia viver mais.
Como fui fraca! Por que eu
nunca consegui ser como os meus irmãos? Por que eles aceitaram as provações com
resignação e eu não? Por que eu nunca consegui aceitar a vontade de Deus? Por
que eu nunca tive forças para estudar, trabalhar e tentar mudar a minha
condição? Por que?
Acho que me faltou fé em Deus, que eu nunca quis
conhecer direito, nem aceitar, quando minha mãe queria me ensinar a rezar, a
estudar a bíblia, mas eu era extremamente rebelde, não tinha paciência para
ouvir e achava que se Deus realmente existisse, Ele não permitiria que a minha
família passasse tantas necessidades, tantas privações.
Eu não entendia como Deus
poderia existir e ser bom e justo como eles diziam se o mundo tinha tantas
desigualdades, tanta dor, tanto sofrimento. Por que uns tinham tanto enquanto
outros, como nós, havíamos nascido com tão poucos recursos.
Mas eu não compreendia que
apesar das dificuldades financeiras, nós tínhamos recebido muitas graças da
Providência Divina. Que apesar do pouco dinheiro, do lar humilde, eu tinha uma
família, eu tinha pais que me amavam, irmãos desvelados e companheiros, que
muito tentaram me ajudar e me fazer enxergar o lado bom das coisas, eu tinha
saúde, um lar... Tive oportunidades de estudo, tive uma mãe que me falou de
Deus, que tentou me ensinar conceitos de moral e boa índole, mas nada disso eu
soube aproveitar.
E quanto me arrependo por
isto. Quanto eu gostaria de poder voltar atrás e fazer tudo diferente. Mas
também sei que o tempo não volta, que as oportunidades perdidas, jogadas fora
não voltam. E hoje também sei que existe sim, um Deus amoroso, bondoso, justo e
soberano a todas as coisas, que nos dá uma nova oportunidade de vida mesmo que
não mereçamos, mesmo que tenhamos feito tudo errado. Sei que a vida continua
mesmo após a morte, sei que tudo que nos acontece é reflexo das nossas escolhas
certas ou erradas e, que o sofrimento às vezes é necessário para a
conscientização do espírito e para a sua evolução.
Quero seguir estudando no
plano espiritual, tentando recuperar o tempo que perdi quando estava aí na
Terra. Estou me tratando e tenho a certeza de que um dia voltarei a viver na
Terra, num novo corpo, num novo lar e quero ajudar outras pessoas a se manterem
afastadas das drogas.
Com amor e profundo arrependimento,
Celina (03/01/09)
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