Tenho me sentido tão mal.
Sinto que de uns tempos pra cá meu organismo chegou no limite. As drogas
acabaram comigo em vida. E continuam acabando comigo depois de morto.
É estranho, é esquisito,
tudo isso que tem acontecido comigo depois que eu morri. Eu vi meu corpo lá,
estendido no chão, morto. Acompanhei tudo, os bombeiros do resgate tentando me
reanimar, as pessoas gritando, chorando após o acidente, meu corpo estendido,
inerte, a dor imensa, lancinante no meu peito e eu vendo tudo... Como era
possível? Como eu podia estar lá, morto e ao mesmo tempo aqui, sentindo-me
vivo, apesar da dor, apesar do desespero, mas vivo? Como eu podia ser dois?
Como eu podia estar em dois lugares ao mesmo tempo? Aprendi na faculdade que
dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço nem tampouco o mesmo corpo pode
estar em dois lugares. Mas como podia ser eu e não ser eu?
Fiquei neste “parafuso” de
idéias, sem compreender direito tudo aquilo por algum tempo, mas depois
compreendi que o que tinha morrido era o meu corpo de carne, mas que eu tinha
um outro corpo, um corpo espiritual, sutil, que sentia tudo o que o meu corpo
de carne sentia. Comecei a perceber as coisas de outra maneira, aprendi a me
mover de um lugar para outro com rapidez, aprendi que se eu ficasse ao lado de
usuários de drogas que ainda estavam vivos, eu podia sentir o efeito das
drogas, sugar as suas energias e satisfazer o meu vício.
O acidente deixou marcas no
meu corpo. Tenho uma ferida aberta que sangra ainda, às vezes, e me faz
desesperar de tanta dor.
Eu estava muito drogado,
completamente alucinado naquela noite. Mas eu queria mais, não conseguia pegar
no sono, apesar de ter consumido altas doses. E eu não tinha mais nada em casa.
E então resolvi sair. Peguei o carro e corri como louco, para comprar mais
droga, àquela hora da noite, sem saber se o traficante me receberia naquele
horário, mas eu precisava tentar e não raciocinei sobre nada.
Peguei a estrada como
louco, uma estrada escura, estreita, perigosa e de repente perdi o controle do
carro e capotei. Meu corpo foi arremessado para fora do carro e ficou estendido
no asfalto. E foi assim que eu morri e terminei com uma vida promissora, com
uma carreira bem sucedida e com tudo que eu tinha.
Estou cansado de vagar,
cansado de sentir dor, cansado de não ter um rumo a seguir, de não ter um
objetivo na minha vida.
Sinto-me fraco, cansado,
doente, queria tanto poder descansar, me recuperar e voltar a ser aquele rapaz
cheio de vida, cheio de sonhos, com muitos amigos, com uma família... coisas
que eu perdi há tanto tempo e que não sei se terei de novo, mas quero tentar,
quero ser ajudado.
Falar me fez bem. Aliviou
um pouco da tensão que eu sentia, da dor e da opressão que eu trago no peito.
Já tinha recebido convites
para ser ajudado num local de tratamento e recuperação, mas eu não quis na
época, pois achava que podia cuidar de mim sozinho e queria continuar livre,
fazendo o que eu bem quisesse.
Mas eu me cansei e hoje vou
seguir com eles para um novo lar, para uma nova vida. Sempre há chance de recomeçar
de novo e fazer uma nova história para a nossa vida.
No momento o que quero é
descansar, dormir um sono tranqüilo como não durmo há tempos. Minha cabeça dói,
meu estomago queima pelo efeito das drogas, acumulado durante tantos anos.
Sei que será uma luta
difícil para me manter afastado das drogas, para me desintoxicar, mas eu
preciso, eu quero e tenho certeza que vou conseguir.
Amilton (24/01/09)
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