Eu nunca quis que a minha
família sofresse. Eu nunca quis que eles passassem pelo que passaram. Já faz
tanto tempo...
Principalmente minha mãe, quanto a fiz sofrer,
quantas vezes a vi chorar, desesperada, sem saber o que fazer. Não foi culpa
dela, não foi culpa de ninguém. A responsabilidade por tudo o que aconteceu
comigo foi só minha, foi por minha vontade, por minha rebeldia que eu segui
este caminho, que eu me embrenhei por um caminho sem volta, com coisas erradas,
com pessoas erradas.
Meus pais me deram de tudo, me deram amor,
educação, carinho, me ensinaram o que era certo e o que era errado, mas eu não
quis aprender, eu não quis seguir uma vida correta. Eu nunca fui muito bom nos
estudos, sempre gostei de ficar pela rua, desde menino, empinando pipa, subindo
em muros e telhados, às vezes até assustando os vizinhos.
Tinha um monte de amigos, ou melhor, de falsos
amigos, pois amigo de verdade quer o bem da gente e os meus só me levaram para
o mau caminho.
Eu queria muito poder voltar no tempo e queria que
a minha mãe soubesse que ela não teve culpa de nada, que ela fez o que podia,
que ela deu o melhor de si para mim e para a minha irmã. Ela sempre fez tudo
por nós, nos deu tudo o que ela podia, nos deu amor, educação, livros, viagens.
Minha irmã soube aproveitar, mas eu não, eu não quis aprender, eu não tinha
paciência para ler, para estudar, para conversar. Eu só queria vadiar, ficar à
toa na vida.
E foi aí que eu dancei: comecei a usar drogas,
comecei a faltar às aulas e me envolvi com pessoas perigosas. E numa tarde, há
muitos anos, fui morto num confronto com a polícia.
Minha mãe quase enlouqueceu, minha irmã sofreu
demais, afinal, apesar de tudo, éramos muito ligados, tínhamos uma ligação
forte, apesar das nossas diferenças, uma ligação que nos uniu desde antes do
nascimento, pois éramos gêmeos.
Como podem dois filhos dos mesmos pais, gerados ao
mesmo tempo, no mesmo ventre, seguirem caminhos tão diferentes?
Eu não tive a força e a doçura da minha irmã para
aceitar as oportunidades que recebi e seguir pelo caminho do bem, pelo
contrário, me envolvi com bebida, com drogas, com pessoas erradas e acabei com
a minha vida muito cedo.
Sofri muito depois que morri, não entendia o que
estava acontecendo, não agüentava ver o sofrimento da minha mãe. Meu pai, que
sempre foi quieto e calado, ficou ainda mais introspectivo depois da minha
morte. Mas a minha irmã sofreu demais. Ela que sempre esteve ao meu lado, mesmo
quando eu estava errado, ela que sempre tentou me abrir os olhos, me chamar
para as coisas boas, me trazer junto com ela para o caminho do bem, ela que
sempre me amou incondicionalmente, mesmo com todas as coisas erradas que eu
fazia.
Chorei muito, tentei gritar, mas ninguém me ouvia.
Eu via a minha família chorar, sofrer e eu não podia fazer nada.
Fiquei anos vagando sem rumo, continuei no caminho
errado por muito tempo. Até que um dia, vi uma luz e resolvi ir até ela. Senti
uma paz, um bem estar tão grande como eu não sentia há muitos anos. Eu já
estava cansado de sofrer, de vagar, de me drogar e pedi ajuda a Deus. Lembrei
da minha família, das coisas que eles me ensinaram a respeito de Deus, de Jesus
e pedi ajuda. E a ajuda veio em forma de luz, em forma de um lar que me
acolheu, de pessoas amigas e bondosas que me deram todo o apoio que eu
precisava para me livrar do vício e me recuperar.
Hoje estou bem, tenho somente uma tristeza grande
por ter perdido tanto tempo e por ter feito os que me amavam sofrer. Mas hoje
sei que eles também estão bem, que já superaram a minha morte, que conseguiram
seguir a vida adiante.
Espero um dia poder estar junto deles. A saudade e
o remorso são muito grandes. Quero abraçar a minha mãe e a minha irmã e poder
demonstrar a elas o quanto as amo e dizer perdão por tudo que eu fiz de errado
e por todas as coisas que deixei de fazer por ter partido tão cedo.
Mas hoje sei que a vida continua após a morte e que
um dia voltarei à Terra.
E que eu tenha forças suficientes para não errar de
novo e me manter afastado das drogas.
Marcelo
Postar um comentário