Depoimento - Ana Luiza

sábado, 28 de julho de 2007

            Não sei dizer bem como foi que eu me perdi na vida, como eu me envolvi com este mundo das drogas.

Nasci em uma família de classe média alta, tive tudo o que um pai pode dar para um filho, desde o lado material até o lado moral, os ensinamentos que eu tive desde a infância.
Mas o fato é que eu me perdi. E me perdi feio, me envolvi com coisas e com pessoas que eu jamais imaginei, me deparei com situações que eu não consigo lembrar sem chorar, sem me arrepender do que eu fiz comigo mesma e do que eu me tornei ao longo dos últimos anos em que estive aqui na Terra.
Acho que foi no colégio, na minha adolescência, com alguns amigos, que comecei experimentando um cigarrinho aqui, uma bebida ali e depois passei a usar coisas mais fortes que me davam a sensação de liberdade que eu jamais experimentara em casa.
Em casa, a minha família apesar de boa, era bastante repressora, tradicional e eu não tinha muita liberdade de expressar o que eu sentia e não tinha espaço para expor as minhas idéias. Eu era a única menina, tinha dois irmãos mais velhos que podiam sair e eu não. Meus pais queriam sempre me prender, talvez com o ímpeto de me proteger (acho que no íntimo eles sabiam o que me esperava, as amarguras que iriam tomar conta do meu caminho). Eu inventava mentiras para poder sair, para escapar do controle deles, dizia que ia estudar quando na verdade eu só pensava em me divertir.
No começo eu ainda conseguia continuar levando a escola, conseguia tirar boas notas, mas com o passar do tempo, eu dedicava tanto do meu tempo ao consumo de drogas que quando eu estava em casa eu não conseguia me concentrar nos estudos. Parece que as drogas matam dia a dia o seu cérebro e a sua capacidade de pensar com clareza. Mesmo quando eu não estava sob o efeito dos entorpecentes eu não conseguia me concentrar nas atividades que antes eram rotineiras, vivia irritada e tensa, sempre bolando um novo plano de fuga dos meus pais e uma nova desculpa para sair.
Até o dia em que a minha família tomou conhecimento do meu estado e do meu envolvimento e tentaram, a todo custo, fazer com que eu largasse. Primeiro me prenderam o quarto, não me deixavam sair, meus irmãos ficavam o tempo todo me vigiando, me levavam para todo lugar. Mas eu precisava continuar estudando e aí eu sempre encontrava um jeito de burlar a vigilância deles e ia atrás de mais droga. Até porque antes, quando ninguém sabia, eu me preocupava para que eles não descobrissem e fazia as coisas de forma velada, discreta, tentando sair sem que eles soubessem onde eu realmente estava, inventando desculpas e mais desculpas, mas nunca desrespeitando meus pais e meus irmãos.
Mas a partir do momento em que eles realmente souberam o que estava acontecendo e o que eu era, eu passei a não me preocupar mais em esconder o que eu estava fazendo. Minhas únicas preocupações eram como conseguir mais drogas, uma vez que eles cortaram a minha mesada, e como fazer para escapar da vigilância deles, ainda que eles soubessem que quando eu sumia era para me drogar.
Eu tinha apenas 15 anos, uma menina ainda, e acabei parando nas ruas, pois fugi de casa depois de uma das vezes em que eles me deixaram trancada no quarto por 2 dias sem que eu consumisse um grama sequer. Quase enlouqueci, pois meu organismo já estava tão dependente que eu tinha dores horríveis, uma compulsão por consumir e não ter o que fazer. Quebrei tudo, gritei, me bati, tentando fazer a dor passar.
Minha família não agüentava mais isso e quiseram me internar mas eu me recusei. Quisera que eles tivessem sido fortes e tivessem me internado ainda que contra a minha vontade, pois naquela época eu não tinha condições psíquicas e fisiológicas para decidir nada. Mas eles não fizeram nada, pois achavam que se eu quisesse ajuda eu deveria pedir, eu deveria querer me ajudar. Mas eu estava tão debilitada tanto fisicamente quanto emocionalmente que eu jamais admitiria que precisava de ajuda.
Sei que comecei a viver nas ruas, junto com outros meninos e meninas que passavam o dia consumindo drogas, dormindo por aí, roubando e até se prostituindo para ter alguns momentos de prazer, vivendo em condições subumanas, transformados em verdadeiros farrapos humanos.
Eu não sabia mais quem eu era, porque estava vivendo, o que eu estava fazendo com a minha vida.
E foi então que eu descobri que estava grávida, nem sei bem como isso aconteceu tal era o meu estado de loucura. É claro que a gravidez não foi adiante, pois as drogas mataram o meu filho antes mesmo que ele nascesse. Fiquei um bom tempo muito mal, minha saúde estava bastante debilitada e eu queria sair disso, pedir ajuda, mas não sabia a quem recorrer.
Nunca mais vi a minha família. Às vezes pensava em procurá-los, mas logo desistia pois sabia que eles não me entenderiam, que eles não iriam poder fazer mais nada por mim.
Sentia que a minha vida se esvaia aos poucos e foi numa noite fria como esta que eu desencarnei. Ouvia gritos ao meu redor, vozes que me chamavam de suicida, de assassina... assassina do meu filho que eu não deixei vir ao mundo, que eu matei e a quem hoje peço perdão. Peço perdão também a Deus e a mim mesma, pelo que fiz comigo, pelo que eu deixei de viver.
Como eu queria poder voltar atrás...
Como eu me arrependo pelas coisas que fiz, pelas pessoas que eu fiz sofrer...
Mas o tempo não volta e agora me resta agradecer por poder contar um pouco da minha história e espero que ela sirva de exemplo para que outros jovens não se percam como eu me perdi.
Deus foi e tem sido muito bom comigo, me acolhendo nos braços de amigos dedicados que muito têm feito pela minha recuperação e a de outros jovens, que assim como eu, perderam tão cedo as suas vidas.
Estou num centro de recuperação, onde tenho passado por tratamentos que estão reequilibrando minhas energias e restabelecendo a minha lucidez. Tenho participado das reuniões de vocês já há algumas semanas e quero agradecer a Deus por esta oportunidade que Ele tem me dado de aprender, de evoluir, de continuar me tratando e ouvindo coisas que eu nunca ouvi quando estava encarnada.
Como eu disse no início, meus pais tinham uma condição social favorável, me deram tudo que o dinheiro podia comprar, me deram ensinamentos morais mas nunca me falaram de Deus, nunca me ensinaram a rezar e a ver as pessoas como nossos irmãos. Eu nunca aprendi a olhar para mim mesma e ver o que eu estava fazendo com a minha vida. Eu nunca entrei numa igreja, nunca pensei no que aconteceria comigo depois que eu morresse. Nunca me preocupei com o que eu estava fazendo ao meu corpo e ao meu perispírito, pois eu achava que quando morresse tudo estaria acabado e para ser bem sincera, quando eu estava curtindo os efeitos das drogas eu nem pensava nisso.
Mas como eu me enganei... E como eu queria ter conhecido antes as coisas que eu sei agora.
Bom, meus mentores que me trouxeram aqui estão me dizendo que já é hora de me despedir de vocês.
E eu digo que tenho o coração mais aliviado depois de poder compartilhar com vocês a minha história.
Obrigada mais uma vez e continuem orando por nós. Por mim e pelos meus companheiros. 
Um abraço com gratidão,  
Ana Luiza

sábado, 14 de julho de 2007

            As areias de uma ampulheta escoam de forma contínua e inexorável, como se não tivessem outra coisa a fazer a não ser cair e correr

Por mais que tentemos impedir que ela escorra para o lado de baixo, sem mexermos a ampulheta do lugar, ela não irá parar de cair, até que termine o último grão.
Mas se inclinarmos levemente a ampulheta, a areia cairá mais lentamente e o tempo será maior, ou ainda se a colocarmos de forma horizontal, a areia cessará de cair até que a recoloquemos na posição original.
Assim também é a nossa vida. Se não fizermos nada que a altere, se não mudarmos o seu curso, teremos um tempo de vida e uma jornada conforme programado pela Espiritualidade.
Mas se tomarmos outros rumos, se alterarmos nossos planos, a nossa vida poderá ser ceifada antes da hora ou ainda poderá ficar estanque, paralisada, sem sair do lugar, desperdiçando oportunidades preciosas que poderíamos ter vivido,
Mas Deus, em sua infinita bondade e sabedoria, sempre nos ampara para que trilhemos nosso caminho o mais próximo possível dos ensinamentos do Cristo. 

Boa noite e graças a Deus.
Força e fé, queridos irmãos.
 
Evanhoé

Depoimento - Emílio


Queria gritar por socorro, mas de repente me vi caído. Tentei gritar, mas já não tinha voz. Vi meu corpo estendido sobre o asfalto, pessoas tentando me reanimar, mas tudo em vão. Eu não conseguia entender o que se passava comigo, o que estava acontecendo. Como eu podia estar lá, estirado no chão e ao mesmo tempo em pé, olhando para mim mesmo? Mas a dor, a sensação de asfixia, a droga que me corroia as entranhas, isso eu continuava sentindo.

Uma sensação de horror tomou conta de mim quando eu me dei conta de que estava morto, de que já não pertencia mais a esta vida. Aliás, vida esta que eu desperdicei e só hoje percebo quantas oportunidades perdi.

Como eu queria, meu Deus, naquele tempo ter o entendimento que eu tenho agora, saber as coisas que eu sei.

Nasci e cresci numa família católica, mas nunca me senti perto de Deus, nunca freqüentei assiduamente as missas como era o desejo de meus pais. Pequenino, minha mãe me ensinou a rezar, mas tão logo eu me vi crescido e auto-suficiente, como eu me achava, e me esqueci desta prática tão importante, que talvez tivesse me tirado deste caminho horrendo no qual eu me perdi.

Hoje eu sei que Deus é nosso Pai e que só a Ele cabe decidir quando a nossa vida, quando a nossa jornada será encerrada, mas na época em que eu estava encarnado eu não pensava assim. Achava que eu podia fazer tudo, que nada iria me acontecer, que eu tinha uma saúde de ferro e que o que eu estava injetando ou ingerindo só iria me fortalecer e me deixar mais solto, mais alegre, mais eufórico.

Mas como eu me enganei. E como eu sofri. Agora ainda sofro, não mais das dores físicas horríveis que tinha como quando desencarnei,  mas de dores da alma. Sofro com o remorso e com a culpa pelo que fiz a mim mesmo. Sofro pelo sofrimento que causei aos meus pais, que sempre se preocuparam comigo, ao meu irmão, que tentou me alertar, que tentou me ajudar e fazer com que eu largasse esse caminho tão triste que escolhi. Mas eu, orgulhoso que era, não dei ouvidos a ninguém e segui sozinho por esta estrada dolorosa.

Queria ter conhecido a Doutrina Espírita ainda em vida, saber o que sei agora. Talvez eu não tivesse sido forte o suficiente e tivesse me envolvido também como me envolvi nesta teia pegajosa, que por mais que você tente sair sempre te enrosca, te enrola e te prende, te puxa de volta para o meio dela. Mas talvez não, talvez eu tivesse tido consciência do que eu estava fazendo ou talvez nem tivesse me envolvido. Talvez, talvez, talvez.... Agora de nada adiantam lamentos e suposições, hipóteses.




Mas eu penso muito nisso. Hoje sei que nossa alma é eterna, que a morte do corpo não acaba com tudo, que a vida não sucumbe com a morte do corpo, que o que fizermos com nosso corpo deixará marcas profundas cravadas em nosso corpo espiritual e que eu posso sim, ser considerado um suicida pois não cuidei do corpo que Deus me deu e desperdicei uma oportunidade jogando fora a minha última encarnação, ceifando a minha própria vida, rompendo mais cedo do que o planejado o fio que une o corpo ao espírito.

Hoje me encontro bem melhor e rezo para que Deus me perdoe pelo que fiz comigo e com todos os que me amam. Se eu pudesse voltar no tempo, diria perdão aos meus pais, que me deram a vida e a Deus, que me deu a oportunidade de reencarnar, oportunidade esta que eu não soube aproveitar.

Quero ter forças para continuar me tratando, para continuar estudando e ajudando outros jovens que como eu tiveram família, tiveram um lar, tiveram estudo, amigos, viagens, um emprego e tudo que um jovem precisa para ser feliz, mas não souberam aproveitar isto enquanto em vida.

Hoje sei o quanto eu queria poder estar na Terra, poder estar com aqueles que eu amo, mas sei que teremos um longo tempo separados.

Peço a vocês que nos ajudem com as suas orações e com as palavras de incentivo e de fé que eu tenho ouvido aqui.

E que lutem com o que vocês tiverem de recursos para tirar jovens e até mesmo crianças deste caminho horroroso que é este mundo das drogas.

Obrigado pela oportunidade de eu poder estar expressando meus sentimentos há tanto represados e contidos dentro de um coração às vezes amargurado e às vezes agradecido a Deus por agora compreender como a vida é sábia e como a vida nos ensina, ainda que pelos caminhos da dor.

Fiquem com Deus e estejam certos de que a luz do Sol estará sempre brilhando no caminho de vocês.



Uma boa noite e um abraço a todos.


Emílio

Família

sábado, 7 de julho de 2007


Família é um bem sagrado

Aqueles que agora temos ao lado

Foram talvez nossos companheiros de outrora

Ou quem sabe nossos inimigos de fora

Mas se Deus permitiu que nos reencontrássemos

Foi para que juntos nos ajudássemos

Foi para que juntos nós crescêssemos

E juntos evoluíssemos.

Depoimento - Carlos

            Queridos irmãos, boa noite.

Já há algumas noites que eu venho acompanhando as reuniões de vocês. Fui aqui trazido por companheiros que têm se dedicado à nossa recuperação, à minha e à de meus companheiros de tragédia. Nós, que tão cedo deixamos a vida na Terra. Nós que tão cedo tivemos ceifada a nossa existência pela desgraça em que nos envolvemos, pela teia de horrores em que ficamos presos.
Quero dizer que muito tenho aprendido com os estudos de vocês, que muito têm me ajudado a entender melhor o que aconteceu comigo e com os meus companheiros de drogas. Nós, que nos envolvemos com esta mazela que tem levado tantas vidas, que tem destruído a alegria de tantos lares, que vem acabando com a alegria de tantos jovens, que assim como eu, foram fracos para resistir aos apelos que todos os dias batem à porta de tantos jovens, que quando percebem já estão num caminho, não digo sem volta, mas muito difícil de sair. E este caminho é longo, é doloroso. No começo parece que tudo é só alegria, euforia, uma sensação de grandeza, de poder, pois quando se está sob o efeito da droga, achamos que podemos tudo, achamos que somos os melhores, que todos gostam de nós, que somos pessoas extrovertidas, desinibidas, cheias de amigos. Mas depois de um tempo você passa a precisar de mais e mais e mais, numa loucura que não tem fim, numa compulsão que enlouquece, que deixa você agoniado por mais e cada vez precisa de mais para sentir o que sentia antes, no início. E quando você acorda se sente um lixo perante si mesmo, perante sua família, perante seus amigos de verdade, que realmente querem o seu bem. Pois aqueles outros, que só consumiam drogas com você e só te ofereciam drogas, que se diziam seu amigos, esses não são amigos não, são companheiros de desgraça  ou que causaram a sua desgraça.
Não sei explicar direito como comecei, como entrei nessa, mas foram nas festas, nas ditas “baladas”, em que você, para se sentir alguém, para se enturmar, acaba experimentando, sempre achando que poderá parar, que tem controle sobre si e que só fará aquilo que quiser.
Mas quanto engano, meu Deus, quanto equívoco quando pensei que tivesse controle sobre mim, mas era a droga que me controlava. Perdi tudo que tinha: meus amigos, minha família, minha saúde e por fim a minha vida.
Destruí o meu corpo e hoje sei que destruí também parte do meu perispírito, que ainda apresenta as marcas do que as drogas fizeram comigo, com a minha sanidade física e mental.
Estou, como tantos outros amigos, em processo de recuperação, de desintoxicação do meu corpo espiritual. E em processo de aprendizado, pois sei que o que plantamos, teremos que colher. E eu agora tenho consciência de que estou colhendo os frutos amargos do que fiz comigo mesmo e que ainda terei muito o que resgatar. E poder pedir perdão ao Pai que nos deu a vida, da qual eu não soube cuidar e que desperdicei com coisas que só me fizeram mal e que fizeram aqueles que me amavam sofrer.
Quero, no futuro, quando estiver melhor, poder trabalhar, assim como o irmão Tavinho, que já se comunicou aqui com vocês e que agora está nos ajudando a nos recuperar e a ver que acima de tudo existe Deus e que a vida é um bem precioso que temos que cuidar.
Fiquem com Deus e sempre que puderem orem por nós, pois precisamos muito das vibrações amigas e da força espiritual que vocês têm nos encaminhado.

Um abraço, Carlos

 
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