Queria
gritar por socorro, mas de repente me vi caído. Tentei gritar, mas já não tinha
voz. Vi meu corpo estendido sobre o asfalto, pessoas tentando me reanimar, mas
tudo em vão. Eu não conseguia entender o que se passava comigo, o que estava
acontecendo. Como eu podia estar lá, estirado no chão e ao mesmo tempo em pé,
olhando para mim mesmo? Mas a dor, a sensação de asfixia, a droga que me
corroia as entranhas, isso eu continuava sentindo.
Uma
sensação de horror tomou conta de mim quando eu me dei conta de que estava
morto, de que já não pertencia mais a esta vida. Aliás, vida esta que eu
desperdicei e só hoje percebo quantas oportunidades perdi.
Como
eu queria, meu Deus, naquele tempo ter o entendimento que eu tenho agora, saber
as coisas que eu sei.
Nasci e cresci numa
família católica, mas nunca me senti perto de Deus, nunca freqüentei
assiduamente as missas como era o desejo de meus pais. Pequenino, minha mãe me
ensinou a rezar, mas tão logo eu me vi crescido e auto-suficiente, como eu me
achava, e me esqueci desta prática tão importante, que talvez tivesse me tirado
deste caminho horrendo no qual eu me perdi.
Hoje
eu sei que Deus é nosso Pai e que só a Ele cabe decidir quando a nossa vida,
quando a nossa jornada será encerrada, mas na época em que eu estava encarnado
eu não pensava assim. Achava que eu podia fazer tudo, que nada iria me
acontecer, que eu tinha uma saúde de ferro e que o que eu estava injetando ou
ingerindo só iria me fortalecer e me deixar mais solto, mais alegre, mais
eufórico.
Mas
como eu me enganei. E como eu sofri. Agora ainda sofro, não mais das dores
físicas horríveis que tinha como quando desencarnei, mas de dores da alma. Sofro com o remorso e
com a culpa pelo que fiz a mim mesmo. Sofro pelo sofrimento que causei aos meus
pais, que sempre se preocuparam comigo, ao meu irmão, que tentou me alertar,
que tentou me ajudar e fazer com que eu largasse esse caminho tão triste que
escolhi. Mas eu, orgulhoso que era, não dei ouvidos a ninguém e segui sozinho
por esta estrada dolorosa.
Queria
ter conhecido a Doutrina Espírita ainda em vida, saber o que sei agora. Talvez
eu não tivesse sido forte o suficiente e tivesse me envolvido também como me
envolvi nesta teia pegajosa, que por mais que você tente sair sempre te
enrosca, te enrola e te prende, te puxa de volta para o meio dela. Mas talvez
não, talvez eu tivesse tido consciência do que eu estava fazendo ou talvez nem
tivesse me envolvido. Talvez, talvez, talvez.... Agora de nada adiantam
lamentos e suposições, hipóteses.
Mas
eu penso muito nisso. Hoje sei que nossa alma é eterna, que a morte do corpo
não acaba com tudo, que a vida não sucumbe com a morte do corpo, que o que
fizermos com nosso corpo deixará marcas profundas cravadas em nosso corpo
espiritual e que eu posso sim, ser considerado um suicida pois não cuidei do
corpo que Deus me deu e desperdicei uma oportunidade jogando fora a minha
última encarnação, ceifando a minha própria vida, rompendo mais cedo do que o
planejado o fio que une o corpo ao espírito.
Hoje
me encontro bem melhor e rezo para que Deus me perdoe pelo que fiz comigo e com
todos os que me amam. Se eu pudesse voltar no tempo, diria perdão aos meus
pais, que me deram a vida e a Deus, que me deu a oportunidade de reencarnar,
oportunidade esta que eu não soube aproveitar.
Quero
ter forças para continuar me tratando, para continuar estudando e ajudando
outros jovens que como eu tiveram família, tiveram um lar, tiveram estudo,
amigos, viagens, um emprego e tudo que um jovem precisa para ser feliz, mas não
souberam aproveitar isto enquanto em vida.
Hoje
sei o quanto eu queria poder estar na Terra, poder estar com aqueles que eu
amo, mas sei que teremos um longo tempo separados.
Peço
a vocês que nos ajudem com as suas orações e com as palavras de incentivo e de
fé que eu tenho ouvido aqui.
E
que lutem com o que vocês tiverem de recursos para tirar jovens e até mesmo
crianças deste caminho horroroso que é este mundo das drogas.
Obrigado
pela oportunidade de eu poder estar expressando meus sentimentos há tanto
represados e contidos dentro de um coração às vezes amargurado e às vezes
agradecido a Deus por agora compreender como a vida é sábia e como a vida nos
ensina, ainda que pelos caminhos da dor.
Fiquem
com Deus e estejam certos de que a luz do Sol estará sempre brilhando no
caminho de vocês.
Uma
boa noite e um abraço a todos.
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