Não
sei dizer bem como foi que eu me perdi na vida, como eu me envolvi com este
mundo das drogas.
Nasci
em uma família de classe média alta, tive tudo o que um pai pode dar para um
filho, desde o lado material até o lado moral, os ensinamentos que eu tive
desde a infância.
Mas
o fato é que eu me perdi. E me perdi feio, me envolvi com coisas e com pessoas
que eu jamais imaginei, me deparei com situações que eu não consigo lembrar sem
chorar, sem me arrepender do que eu fiz comigo mesma e do que eu me tornei ao
longo dos últimos anos em que estive aqui na Terra.
Acho
que foi no colégio, na minha adolescência, com alguns amigos, que comecei
experimentando um cigarrinho aqui, uma bebida ali e depois passei a usar coisas
mais fortes que me davam a sensação de liberdade que eu jamais experimentara em
casa.
Em
casa, a minha família apesar de boa, era bastante repressora, tradicional e eu
não tinha muita liberdade de expressar o que eu sentia e não tinha espaço para
expor as minhas idéias. Eu era a única menina, tinha dois irmãos mais velhos
que podiam sair e eu não. Meus pais queriam sempre me prender, talvez com o
ímpeto de me proteger (acho que no íntimo eles sabiam o que me esperava, as
amarguras que iriam tomar conta do meu caminho). Eu inventava mentiras para
poder sair, para escapar do controle deles, dizia que ia estudar quando na
verdade eu só pensava em me divertir.
No
começo eu ainda conseguia continuar levando a escola, conseguia tirar boas notas,
mas com o passar do tempo, eu dedicava tanto do meu tempo ao consumo de drogas
que quando eu estava em casa eu não conseguia me concentrar nos estudos. Parece
que as drogas matam dia a dia o seu cérebro e a sua capacidade de pensar com
clareza. Mesmo quando eu não estava sob o efeito dos entorpecentes eu não
conseguia me concentrar nas atividades que antes eram rotineiras, vivia
irritada e tensa, sempre bolando um novo plano de fuga dos meus pais e uma nova
desculpa para sair.
Até
o dia em que a minha família tomou conhecimento do meu estado e do meu
envolvimento e tentaram, a todo custo, fazer com que eu largasse. Primeiro me
prenderam o quarto, não me deixavam sair, meus irmãos ficavam o tempo todo me
vigiando, me levavam para todo lugar. Mas eu precisava continuar estudando e aí
eu sempre encontrava um jeito de burlar a vigilância deles e ia atrás de mais
droga. Até porque antes, quando ninguém sabia, eu me preocupava para que eles
não descobrissem e fazia as coisas de forma velada, discreta, tentando sair sem
que eles soubessem onde eu realmente estava, inventando desculpas e mais
desculpas, mas nunca desrespeitando meus pais e meus irmãos.
Mas
a partir do momento em que eles realmente souberam o que estava acontecendo e o
que eu era, eu passei a não me preocupar mais em esconder o que eu estava
fazendo. Minhas únicas preocupações eram como conseguir mais drogas, uma vez
que eles cortaram a minha mesada, e como fazer para escapar da vigilância
deles, ainda que eles soubessem que quando eu sumia era para me drogar.
Eu
tinha apenas 15 anos, uma menina ainda, e acabei parando nas ruas, pois fugi de
casa depois de uma das vezes em que eles me deixaram trancada no quarto por 2
dias sem que eu consumisse um grama sequer. Quase enlouqueci, pois meu organismo
já estava tão dependente que eu tinha dores horríveis, uma compulsão por
consumir e não ter o que fazer. Quebrei tudo, gritei, me bati, tentando fazer a
dor passar.
Minha
família não agüentava mais isso e quiseram me internar mas eu me recusei.
Quisera que eles tivessem sido fortes e tivessem me internado ainda que contra
a minha vontade, pois naquela época eu não tinha condições psíquicas e
fisiológicas para decidir nada. Mas eles não fizeram nada, pois achavam que se
eu quisesse ajuda eu deveria pedir, eu deveria querer me ajudar. Mas eu estava
tão debilitada tanto fisicamente quanto emocionalmente que eu jamais admitiria
que precisava de ajuda.
Sei
que comecei a viver nas ruas, junto com outros meninos e meninas que passavam o
dia consumindo drogas, dormindo por aí, roubando e até se prostituindo para ter
alguns momentos de prazer, vivendo em condições subumanas, transformados em
verdadeiros farrapos humanos.
Eu não sabia mais quem eu era, porque estava
vivendo, o que eu estava fazendo com a minha vida.
E
foi então que eu descobri que estava grávida, nem sei bem como isso aconteceu
tal era o meu estado de loucura. É claro que a gravidez não foi adiante, pois
as drogas mataram o meu filho antes mesmo que ele nascesse. Fiquei um bom tempo
muito mal, minha saúde estava bastante debilitada e eu queria sair disso, pedir
ajuda, mas não sabia a quem recorrer.
Nunca
mais vi a minha família. Às vezes pensava em procurá-los, mas logo desistia
pois sabia que eles não me entenderiam, que eles não iriam poder fazer mais
nada por mim.
Sentia
que a minha vida se esvaia aos poucos e foi numa noite fria como esta que eu
desencarnei. Ouvia gritos ao meu redor, vozes que me chamavam de suicida, de
assassina... assassina do meu filho que eu não deixei vir ao mundo, que eu matei
e a quem hoje peço perdão. Peço perdão também a Deus e a mim mesma, pelo que
fiz comigo, pelo que eu deixei de viver.
Como
eu queria poder voltar atrás...
Como eu me arrependo
pelas coisas que fiz, pelas pessoas que eu fiz sofrer...
Mas
o tempo não volta e agora me resta agradecer por poder contar um pouco da minha
história e espero que ela sirva de exemplo para que outros jovens não se percam
como eu me perdi.
Deus
foi e tem sido muito bom comigo, me acolhendo nos braços de amigos dedicados
que muito têm feito pela minha recuperação e a de outros jovens, que assim como
eu, perderam tão cedo as suas vidas.
Estou
num centro de recuperação, onde tenho passado por tratamentos que estão
reequilibrando minhas energias e restabelecendo a minha lucidez. Tenho participado
das reuniões de vocês já há algumas semanas e quero agradecer a Deus por esta
oportunidade que Ele tem me dado de aprender, de evoluir, de continuar me
tratando e ouvindo coisas que eu nunca ouvi quando estava encarnada.
Como
eu disse no início, meus pais tinham uma condição social favorável, me deram
tudo que o dinheiro podia comprar, me deram ensinamentos morais mas nunca me
falaram de Deus, nunca me ensinaram a rezar e a ver as pessoas como nossos
irmãos. Eu nunca aprendi a olhar para mim mesma e ver o que eu estava fazendo
com a minha vida. Eu nunca entrei numa igreja, nunca pensei no que aconteceria
comigo depois que eu morresse. Nunca me preocupei com o que eu estava fazendo
ao meu corpo e ao meu perispírito, pois eu achava que quando morresse tudo
estaria acabado e para ser bem sincera, quando eu estava curtindo os efeitos
das drogas eu nem pensava nisso.
Mas
como eu me enganei... E como eu queria ter conhecido antes as coisas que eu sei
agora.
Bom,
meus mentores que me trouxeram aqui estão me dizendo que já é hora de me
despedir de vocês.
E
eu digo que tenho o coração mais aliviado depois de poder compartilhar com
vocês a minha história.
Obrigada
mais uma vez e continuem orando por nós. Por mim e pelos meus companheiros.
Um
abraço com gratidão,
Ana
Luiza
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